João Evangelista Tude de Melo Neto
Nietzsche: o último discípulo do filósofo Dioniso
Em plena Idade Média, ainda era possível testemunhar manifestações públicas de exaltação ao deus da embriaguez entre camponeses que trabalhavam na produção de vinho em regiões do Império Bizantino. Durante a “pisa da uva”, por exemplo, eles preservaram a tradição de gritar o nome da divindade: – “Dioniso!”. Em represália a esta prática, o concílio de Trullo – realizado em Constantinopla, entre 691 e 692 d.C. – determinou a proibição da reverência ao deus pagão. Entre os 102 cânones que compõem a ata do referido concílio, o cânon 62 advertia que estas e outras práticas ligadas à cultura dionisíaca deveriam ser completamente extirpadas “do modo de vida dos fiéis”. As interdições às práticas dionisíacas formalizadas pelo cânon cristão nos remetem, de imediato, ao embate ao qual Nietzsche faz referência no final de sua autobiografia, o Ecce Homo: “–Fui compreendido? – Dioniso contra o Crucificado …”. Ora, o que o filósofo tinha em mente ao se referir à oposição entre Dioniso e o Crucificado? No livro que agora vem a lume, João Evangelista Tude de Melo Neto tenta responder esta questão por meio da elucidação da relação entre a filosofia nietzschiana e a religiosidade dionisíaca dos gregos antigos. Neste volume, o autor manteve-se fiel ao fio condutor metodológico de seus trabalhos anteriores; qual seja, compreender o pensamento tardio de Nietzsche à luz das tradições filosóficas e religiosas da antiguidade ocidental.
En plein Moyen Âge, il était encore possible d’observer des manifestations publiques d’exaltation du dieu de l’ivresse parmi les paysans qui travaillaient à la production du vin dans certaines régions de l’Empire byzantin. Lors du foulage du raisin, par exemple, ils avaient conservé la tradition de crier le nom de la divinité : « Dionysos ! ». En représailles à cette pratique, le concile in Trullo — tenu à Constantinople entre 691 et 692 apr. J.-C. — décréta l’interdiction de toute révérence à l’égard du dieu païen. Parmi les 102 canons qui composent les actes de ce concile, le canon 62 avertissait que ces pratiques, ainsi que d’autres liées à la culture dionysiaque, devaient être complètement extirpées « du mode de vie des fidèles ». Les interdictions des pratiques dionysiaques formulées par le canon chrétien nous renvoient immédiatement à l’affrontement auquel Nietzsche fait référence à la fin de son autobiographie, Ecce Homo : « Ai-je été compris ? — Dionysos contre le Crucifié… ». Or, que voulait dire le philosophe lorsqu’il évoquait l’opposition entre Dionysos et le Crucifié ? Dans son livre, João Evangelista Tude de Melo Neto tente de répondre à cette question en élucidant la relation entre la philosophie nietzschéenne et la religiosité dionysiaque des Grecs anciens. Dans ce volume, l’auteur demeure fidèle au fil conducteur méthodologique de ses travaux antérieurs, à savoir : comprendre la pensée tardive de Nietzsche à la lumière des traditions philosophiques et religieuses de l’Antiquité occidentale.
São Paulo
Editora Ideias e Letras
julho 2026
208 páginas
ISBN : 9788555800757














